Crônicas

Venerandas folhas amarelas que não são do outono

E teve vontade de tocar piano, só para se sentar por ali e acordar uma melodia quase alegre, aguardando o parceiro que a acompanharia, a quatro mãos.

Entretanto, não havia um; se houvesse, não saberia tocá-lo. Estava sozinha entre páginas fustigadas e quase oleosas, alguma poeira, nada além. Era só àquela hora da madrugada, dentro do sebo que herdara da bondosa vizinha solitária — a que fazia bolos, a chamava de neta e a ensinara a usar o forno do seu fogão.

lia.

Seu nome e a ação que mais repetia nos fins de semana, enquanto seus iguais, de mesma geração, saíam para trocar papos, beijos e telefones. Preferia o silêncio e a rinite que se seguia às lágrimas após terminar outra capa gasta pelo manuseio de tantos dedos. O silêncio era violado apenas pelo som das páginas sendo viradas e pelo zunido da lâmpada âmbar que incandescia o ambiente.

lia e escrevia; palavras rabiscadas em post-its, em folhas de rascunho, jamais nos livros.

— “Já amanheceu”, percebe.

A escuridão não ousou atravessar o translúcido vitral para além da janela.

Ouve acordes clássicos, mas não há toca-discos, nem som, tampouco Spotify (costuma desligar-se do mundo ao dormir entre autores tão distintos). A tinta da caneta esferográfica continua:

Não molhei as plantas
nem levantei da cama
ambos, os três, ausentes

como se o dia não me chamasse pelo nome
ou eu já não atendesse-entendesse

Abri os olhos
permaneci
presa na inquietude dos pensamentos,
único ruído possível
no mar quieto
das palavras que dormem sem vento

Lá fora, talvez escureça
talvez eu que me apague

antes que a luz aconteça

Talvez se ouçam pneus,
pessoas que passam correndo,
respiros curtos,
solas riscando o tempo
indo, vindo, indo, vindo
como se soubessem
onde termina um [qualquer] momento

Já amanheceu,
dizem sem dizer as horas sem voz
Eu escureci antes,
por dentro de mim,
antes de nós

Não defini o que comer
se almoço, se jantar
um desjejum suspenso
no gesto de não escolher
o que sustenta continuar

Escureceu
repentinamente
como um corte no dia
ou uma fenda da mente

Isso — um trovão?
ou o mundo desabando em vão?

Já escureceu
E, mesmo assim,
insiste
quase teimosia
um novo dia
dentro e fora de mim

lia.

Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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